22/12/14

CRISTIANISMO E ISLAMISMO NO MUNDO ATUAL

Alderi Souza de Matos Enfoque: Panorama dos conflitos atuais e questão do fanatismo religioso 1. Panorama histórico Após muitos séculos de confrontação com a cristandade, o domínio árabe na Europa ocidental (Península Ibérica) chegou ao fim em 1492. O fim do avanço otomano terminou em 1683, com a derrota diante dos poloneses no segundo cerco de Viena. O império turco ainda se envolveria em várias guerras com a Rússia (como a da Criméia, em 1854), mas começaria a perder progressivamente os seus territórios nos Bálcãs e no Oriente Médio. O califado otomano chegou ao fim em 1924, não sem antes ter promovido o terrível genocídio dos armênios (a partir de 1915). Análise do prof. J. Dudley Woodberry (Fuller), que desde 1957 tem estudado, lecionado e ministrado no Líbano, Afeganistão, Paquistão e Arábia Saudita e visitou 35 outros países predominantemente muçulmanos: No início da I Guerra Mundial, foi dito aos árabes que, se apoiassem os aliados contra os seus senhores turcos, que apoiavam a Alemanha, eles receberiam a independência. Um ano depois, o Acordo Sykes-Picot dividiu o Oriente Médio entre os ingleses e os franceses (+Espanha, Holanda e Rússia). Isso gerou uma profunda frustração e sentimento de deslealdade. Logo em seguida veio a Declaração Balfour (02-11-1917), do ministro das relações exteriores da Inglaterra, que dizia que o governo britânico iria apoiar a criação de "um lar nacional para o povo judeu" na Palestina, contanto que isso não interferisse nos direitos civis e religiosos dos moradores locais. O Acordo Sykes-Picot e a Declaração Balfour violaram entendimentos anteriores com os árabes. A partir de então, os muçulmanos começaram a demonstrar sentimentos anti-britânicos e anti-franceses (quando estes ocuparam a Síria e o Líbano). O presidente americano Woodrow Wilson (1913-1921) não tinha aspirações coloniais e os EUA decidiram não participar da divisão dos territórios conquistados, feita após a guerra pela Liga das Nações. Escolas e hospitais cristãos em todo o Oriente Médio, Paquistão e Irã também produziram atitudes positivas para com os Estados Unidos. No final da II Guerra Mundial, Harry Truman violou a promessa feita por Franklin Roosevelt a Abdul Aziz, o rei da Arábia Saudita, de não fazer nada na Palestina sem consultar os árabes. Os Estados Unidos deram pleno apoio ao Estado de Israel (1948), nas Nações Unidas e de outras maneiras. Foi então que surgiu o sentimento anti-americano entre os árabes. (Razões para o apoio a Israel: holocausto, judeus americanos, cristãos conservadores.) Desde então, os muçulmanos têm tido uma atitude rancorosa para com os EUA. A Palestina é uma questão tão importante que obscurece todas as demais. (Livro Irmãos de Sangue, de Elias Chacour) 2. Fanatismo religioso O fenômeno do fanatismo está presente em todas as religiões (bem como em ideologias não-religiosas, como o marxismo). No caso dos muçulmanos, a militância fundamentalista está diretamente relacionada com um sentimento de trauma e de frustração na comunidade islâmica. Fatores: - Senso de estarem ameaçados pelo Ocidente, especialmente pela secularização, pela dissolução dos valores; - Sentimento de serem injustiçados pela política americana, principalmente no caso dos palestinos e do apoio incondicional dos EUA a Israel; - Revolta com a presença de tropas norte-americanas na Arábia Saudita, o berço do islã. Essas frustrações abrem velhas feridas, como a questão das Cruzadas, e alimentam uma corrente intolerante e agressiva dentro do islamismo que remonta ao próprio Maomé e ao Corão. De um modo geral, Maomé tratou bem os cristãos, mas os judeus não tiveram igual sorte. Quando os homens da tribo dos Qurayza se recusaram a ajudá-lo, ele os decapitou junto a uma vala que mandara abrir (Ibn Ishaq, biógrafo islâmico). O islamismo nasceu em oposição consciente ao cristianismo e ao judaísmo. É uma religião militante e por muitos séculos usou, além da persuasão verbal, a força das armas para se expandir. Alguns líderes foram intolerantes com os cristãos, abrindo precedentes perigosos. Em 717, o califa Umar II iniciou a primeira perseguição geral de não-muçulmanos. O califa Harun al-Rashid ordenou a destruição de todas as igrejas novas (807). O califa fatímida Hakim destruiu a Igreja do Santo Sepulcro, em Jerusalém (1009). Em 1244, os residentes cristãos de Jerusalém foram expulsos. 3. O conceito de jihad Um conceito que pode causar problemas é o de jihad. Literalmente, o termo significa "luta", "esforço" ou "empenho". No seu contexto religioso, ela sempre envolve uma luta contra o mal, mas isso pode assumir várias formas. (Análise de Mateen A. Elass, "Four Jihads".) (a) Jihad do coração: significa a luta contra as tendências más da natureza humana, a busca do aperfeiçoamento pessoal. (b) Jihad da boca: visa solapar a oposição ao islã de duas formas - argumentação verbal e maldições ou imprecações, ou seja, guerra verbal. Ex: Saddam Hussein na I Guerra do Golfo: "a mãe de todas as batalhas". (c) Jihad da pena: utiliza a palavra escrita em defesa do islã (por exemplo, as doutrinas centrais da fé cristã tem sido um alvo especial da apologética islâmica). (d) Jihad da mão: busca promover a causa de Alá através de ações louváveis (tratamento exemplar dos outros, devoção a Deus, etc.). A última e mais problemática forma de jihad é a da espada. Esse aspecto domina a história e a jurisprudência islâmica. Quando essa palavra ocorre no Corão sem um qualificativo ou com o qualificativo típico "na causa de Alá", ela invariavelmente significa um apelo ao combate físico em favor do islã. Palavras de Maomé após uma batalha (segundo a hadith): "Todos nós voltamos da jihad menor para a jihad maior". O conceito tem quatro estágios distintos de desenvolvimento no Corão: (1) Quando o islã era um movimento incipiente, Maomé aconselhou uma política de persuasão pacífica: "Incita os humanos à senda de teu Senhor com prudência e com bela exortação; refuta-os de maneira benevolente... se fordes pacientes, será preferível para vós" (Sura 16:125-126). Posteriormente, Maomé decretou que a luta era permissível somente para repelir a agressão e resgatar bens confiscados por infiéis. "Ele permitiu o combate aos que lutaram, porque foram ultrajados; em verdade, Deus é poderoso e pode secundá-los. São aqueles que foram expulsos injustamente de seus lares só porque disseram: Nosso Senhor é Deus!" (Sura 22:39). (2) Dentro de poucos meses, essa permissão para lutar em autodefesa se tornou uma obrigação religiosa de batalhar contra aqueles que iniciassem hostilidades contra a comunidade islâmica ou seus interesses: "Combatei pela causa de Deus àqueles que vos combatem; porém, não os provoqueis, porque Deus não estima os agressores. Combatei-os onde quer que os encontreis e expulsai-os de onde vos expulsaram... Não os combatais nas cercanias da Sagrada Mesquita, a menos que vos ataquem. Mas, se ali vos combaterem, combatei-os. Tal será o castigo dos incrédulos" (Sura 2:190-191). À medida que a doutrina da jihad se desenvolveu, Maomé ensinou que aqueles que sacrificassem suas vidas em batalha pela causa de Alá seriam recebidos no nível mais elevado do céu. Por outro lado, os muçulmanos aptos que rejeitassem o chamado à luta sofreriam a punição divina (9:38-39). Não é de admirar que desde então tenha crescido o número de muçulmanos desejosos de se dedicarem à guerra. (3) O terceiro estágio de desenvolvimento levou a jihad da defesa para o ataque, exceto nos quatro meses de peregrinação religiosa: "Mas quando os meses sagrados houverem transcorrido, combatei os idólatras onde quer que os acheis; capturai-os, acossai-os e espreitai-os; porém, caso se arrependam, observem a oração e paguem o tributo, deixai-os em paz" (Sura 9:5). (4) A evolução final do conceito corânico de jihad afastou quaisquer limitações quanto à época de batalhar na causa de Alá. Quando comandados por um líder islâmico reconhecido, os muçulmanos podiam atacar os incrédulos em qualquer época e em qualquer lugar que ainda não havia se rendido os exércitos do islã. "Combatei aqueles que não crêem em Deus e no Dia do Juízo Final, nem se abstêm do que Deus e seu Apóstolo proibiram, não professam a verdadeira religião daqueles que receberam o Livro, até que eles, submissos, paguem o tributo" (Sura 9:29). 4. O fundamentalismo Portanto, ao lado de uma tradição tolerante, o islamismo obviamente tem uma ênfase beligerante e agressiva, desde a época de sua fundação. Essa tradição alimenta o radicalismo religioso ou fundamentalismo militante, dependendo das circunstâncias. No fundamentalismo cristão, isso é grandemente atenuado pelo exemplo e ensinos de Cristo no Novo Testamento (em contraste com a tradição do Antigo Testamento): sua ênfase na não-resistência ou resistência pacífica, ao amor, ao perdão aos inimigos, etc. Outros fatores que tem alimentado o radicalismo islâmico nas últimas décadas e o seu sentimento anti-ocidental e anticristão (além da questão de Israel) são: A tentativa de modernização forçada de alguns países muçulmanos, e a conseqüente ameaça de secularização e ocidentalização. Ex: o Irã na época do xá Reza Pahlavi e a revolução dos aiatolás. A conseqüência tem sido o surgimento de repúblicas islâmicas. O expansionismo político, cultural e econômico do Ocidente gera animosidade. Tem se usado o termo "cruzado" no sentido de "imperialista", "colonialista" ou mesmo "capitalista". Como o islã é uma religião abrangente, que integra todas as esferas da vida e da sociedade (não há separação entre o religioso e o secular, religião e política), os muçulmanos tendem a aplicar o mesmo critério ao Ocidente, ou seja, não distinguir entre ações políticas de governos e o cristianismo. Não levam em conta a separação entre igreja e estado. Senso de frustração pela situação decadente em que se encontra o mundo islâmico em comparação com os períodos áureos do passado. O Ocidente é rico, avançado tecnologicamente, tem dado as maiores contribuições ao mundo na área cultural. Os muçulmanos estão divididos politicamente e religiosamente: países ricos x países pobres; estados seculares x estados teocráticos; árabes x não-árabes. Eles têm guerreado entre si (Irã x Iraque, Iraque x Kuwait). A partir dos anos 50, o conservadorismo tradicional que sempre se opusera ao modernismo endureceu na forma de resistência política, revolução e finalmente terrorismo. Os conservadores passaram a criticar a decadência ocidental e insistir na volta aos fundamentos islâmicos. As supostas agressões aos valores muçulmanos passaram a ser repelidas com veemência (Versos Satânicos, de Salman Rushdie, 1989). Tudo isso tem afetado profundamente as relações entre o cristianismo e o islamismo. Os cristãos que vivem em países muçulmanos têm sentido mais fortemente os ventos de mudança. Os muçulmanos moderados temem se manifestar. Há uma necessidade de ações positivas de ambos os lados, a começar do Ocidente, visando curar as feridas abertas e restaurar a confiança entre as duas comunidades. Fonte;Instituto Presbiteriano Mackenzie

Salvação – dádiva divina ou conquista humana?

Alderi Souza de Matos Desde o início têm existido duas tendências no cristianismo com respeito à salvação. De um lado, salienta-se a prioridade da graça divina e a salvação como resultado da iniciativa soberana e misericordiosa de Deus. Nessa perspectiva, a única participação do indivíduo é receber, por meio da fé, o que lhe é oferecido graciosamente por Deus. De outro lado, dá-se ênfase a um maior envolvimento do ser humano na experiência de salvação. Ao invés da aparente passividade da fé, acentua-se a prática de ações positivas ou “boas obras” como requisito igualmente importante para o recebimento da salvação. No Novo Testamento, a primeira abordagem é representada principalmente pelo apóstolo Paulo e a segunda, por Tiago. Na maior parte da história da igreja, a segunda abordagem tem tido predominância, e isso desde uma época muito remota. Os historiadores e teólogos chamam a atenção para uma clara mudança de perspectiva nos escritos cristãos posteriores ao Novo Testamento. Entre os anos 95 e 150 foi composto um conjunto de documentos que ficaram conhecidos como “pais apostólicos”. Os principais são a 1ª epístola de Clemente, sete cartas de Inácio de Antioquia, a Didaquê, a Epístola de Barnabé e o Pastor de Hermas. Poucas décadas os separam do Novo Testamento. Todavia, a mudança de perspectiva é sensível: em contraste com a ênfase paulina na graça e na fé, a salvação passa a ser entendida em termos de obediência a uma nova lei. Ela não é vista primordialmente como uma dádiva graciosa de Deus, mas como fruto do esforço e da fidelidade dos cristãos. Em parte, essa mudança foi uma reação contra o crescente antinomismo (rejeição da lei e dos mandamentos) que se difundia entre os cristãos. Muitos crentes, entendendo o evangelho de maneira parcial, tendiam a desprezar o conteúdo ético da vida cristã. Esqueciam-se de que a fé genuína precisa ser acompanhada por frutos (Gl 5.6). No entanto, essa preocupação com a obediência levou a um entendimento legalista e moralista da vida cristã que persistiu ao longo dos séculos. Uma das poucas vozes que defenderam a perspectiva paulina da supremacia da graça e da fé foi o grande bispo Agostinho de Hipona (354-430). Porém, seu pensamento nessa área foi rejeitado pela igreja. Solidificou-se a idéia de que a salvação é um processo que dura a vida inteira, no qual a perseverança e a prática do bem por parte dos cristãos contribuem decisivamente para o resultado final. Somente com a Reforma do século 16 seria resgatado o ensino do apóstolo Paulo de que “pela graça sois salvos mediante a fé, e isso não vem de vós, é dom de Deus” (Ef 2.8). Dolorosamente, essa mensagem libertadora tem sido esquecida por grande número de herdeiros da Reforma. Muitos evangélicos atuais, embora teoricamente comprometidos com a doutrina da justificação pela graça mediante a fé, vivem na prática um entendimento legalista da salvação. Esta é vista como uma transação com Deus, na qual Deus abençoa e recompensa os crentes na medida em que estes se mostram obedientes e zelosos na prática de determinadas ações, como orar, contribuir e freqüentar a igreja. Quando isso ocorre, o relacionamento com o Senhor deixa de estar fundamentado na graça, e sim nos merecimentos humanos. É por isso que tantos se sentem à vontade para reivindicar direitos e até dar ordens a Deus, esquecendo-se de uma verdade destacada por Martinho Lutero: “Somos todos mendigos”, isto é, plenamente carentes da graça divina. Existe um lugar importantíssimo para a obediência e as boas obras na vida cristã, mas não como condição para sermos aceitos e abençoados pelo Deus gracioso. Fonte:Instituto Presbiteriano Mackenzie

28/08/14

Cristianismo: Mãe da liberdade Política

P.Andrew Sandlin. A força política mais libertadora na história da humanidade tem sido o cristianismo (Jo 8.36). O cristianismo ramificou-se do tronco da religião hebraica piedosa do Antigo Testamento, e a antiga nação hebraica (antes da era dos reis [1Sm 8]) foi sem dúvida a sociedade mais libertária na história da humanidade. O cristianismo herdou da fé veterotestamentária a crença inabalável no Deus soberano e transcendente, que está acima de todos e julga toda a humanidade, incluindo seus sistemas de governo civil. A ordem política nunca é suprema. O cristianismo destruiu a unidade do antigo mundo pagão. A fonte dessa unidade era o Estado, geralmente identificado com a própria sociedade, no topo do qual estava um grande líder político, um rei ou imperador, que pensava ser um deus ou semelhante a deus. A unidade do antigo mundo pagão consistia na divinização da ordem temporal na forma do Estado. Mas o cristianismo reconhecia “outro rei” (At 17.7). Embora não por meios anarquistas, os primeiros cristãos reconheciam que nenhuma autoridade terrena, especialmente autoridade política, poderia ser suprema, pois somente a autoridade de Deus é suprema. Ao esclarecer a cristologia (a doutrina de Jesus Cristo) ortodoxa, o Concílio de Calcedônia (451 a.C.) lançou o fundamento da liberdade ocidental. Apenas Jesus Cristo é divino e humano, plenamente Deus e plenamente Homem, a única ligação entre céu e terra. Ele é o único Mediador divino-humano. Essa decisão repudiava dramaticamente toda divinização da ordem temporal. Nenhum Estado, nenhuma igreja, nenhuma família, poderia ser Deus ou semelhante a Deus. Esse reconhecimento colocou o cristianismo patrístico em rota de colisão com a política clássica. Os primeiros cristãos foram perseguidos de maneira selvagem, não porque adoravam a Jesus Cristo, mas porque recusavam adorar ao imperador romano. As sociedades politeístas encorajam a adoração de divindades. Elas resistem à exclusão de todas as divindades, particularmente o Estado, excetuando-se a Divindade verdadeira, o Deus da Bíblia. No mundo medieval, a Igreja Latina tornou-se uma força de compensação na sociedade, verificando e limitando a autoridade do Estado. De fato, na maior parte do tempo, o tamanho e a força da igreja excederam em muito a de qualquer Estado em particular. Lord Acton estava correto ao sugerir que a prática da liberdade política no Ocidente surgiu, em grande parte, a partir deste conflito medieval Igreja-Estado. Em adição, o mundo medieval, a despeito dos seus muitos defeitos, apoiou uma grande medida de liberdade política ao promover várias instituições humanas além da igreja que alegavam fidelidade ao homem: a família, a confraria, o senhor feudal, e assim por diante. Isso significou que o Estado tinha de compartilhar sua autoridade com outras instituições igualmente legítimas. Nenhuma instituição humana pode exercer autoridade suprema. As limitações constitucionais do poder político, das quais surgiu a prática de democracias constitucionais dos séculos 18 e 19, começaram na Inglaterra cristã com a Carta Magna. A Inglaterra também realizou o primeiro ataque bem sucedido contra a doutrina maligna do direito divino dos reis durante a Revolução Puritana na primeira metade do século 17; e em 1688-89, durante a Gloriosa Revolução de Guilherme e Maria, ela colocou o último prego no caixão desta ameaça duradoura à liberdade política. A fundação dos Estados Unidos foi a maior experiência em liberdade política daquele tempo, e ela funcionou conscientemente com base em certas premissas distintamente cristãs. Os Fundadores, por exemplo, reconheceram a doutrina bíblica do pecado original e da depravação humana, e portanto criaram um sistema de governo civil que dividiu a tomada de decisão entre vários ramos e que não outorgou muito poder a nenhum ramo do governo civil. Segundo, eles argumentaram que o papel do governo civil é assegurar os direitos de “vida, liberdade e felicidade”, com os quais Deus, como Criador, dotou todos os homens. Em terceiro lugar, reconhecendo a doutrina bíblica de que o governo civil deveria proteger as minorias (Ex 23.9), eles elaboraram uma constituição à qual juntaram uma Declaração de Direitos, inibindo assim o surgimento de uma tirania resultante de uma rápida mudança política segundo o capricho da opinião democrática. A liberdade política como refletida na separação de poderes, bem como nas fiscalizações e contra balanços; o papel do Estado em proteger a vida, liberdade e propriedade; e a proteção constitucional dos direitos das minorias – todos estes foram legados do cristianismo ao mundo moderno. Hoje o Ocidente definha sob a violência do aborto e eutanásia, a praga do homossexualismo, a pobreza do materialismo, a coerção do socialismo, o domínio da educação “pública”, o caos do ativismo judicial, e a injustiça do racismo e sexismo impostos. Essas tiranias são todas o resultado direto do abandono do cristianismo bíblico. O mundo ocidental tem aceitado crescentemente a proposta daquele primeiro político liberal moderno, Jean Jacque Rousseau: o Estado emancipará você da responsabilidade para com todas as instituições humanas não coercivas, como a família, igreja e os negócios, se apenas você submeter-se à coerção do Estado. O homem moderno está disposto a negociar a sua responsabilidade para com a família, igreja e os negócios, trocando-a por submissão a uma ordem política crescentemente coerciva e violenta. Estamos retornando ao mundo pagão clássico, no qual o Estado coercivo é o princípio unificador de tudo na vida. Os regimes políticos mais cruéis, violentos e assassinos na história da humanidade tem sido os não-cristãos ou anti-cristãos: o humanismo pagão primitivo dos antigos Egito, Babilônia, Pérsia, Grécia e Roma, e o humanismo secular sofisticado da França revolucionária, União Soviética, China Vermelha, Alemanha Nazista, Itália Fascista, e outros estados seculares modernos. O humanismo é e sempre será uma receita para o terror e tirania políticos. A única esperança para o retorno da liberdade política e da sociedade livre que ela promove é um retorno ao cristianismo bíblico e ortodoxo. O cristianismo não é meramente uma matriz na qual a liberdade política floresce; ele é o único fundamento sobre o qual se pode construir uma sociedade livre. 17 de agosto de 2000 Fonte: www.lewrockwell.com Tradução: Felipe Sabino de Araújo Neto – 05 de janeiro de 2011. Revisão: Jazanias Oliveira

27/08/14

A Separação Marxista da Igreja eo Estado

Escrito por: R. J. Rushdoony
Um entendimento da doutrina marxista da separação da igreja e o Estado é urgentemente necessário, porque há uma crescente confusão entre a visão marxista e a antiga posição americana. No mundo marxista, como na União Soviética, a separação da igreja e o Estado significa que a igreja deve ser totalmente separada de cada área da vida e pensamento. Ela não tem a permissão de educar ou influenciar a educação, muito menos influenciar o Estado. Porque as crianças são vistas como propriedade do Estado, a igreja não pode influenciar ou ensinar as crianças. Em todas as esferas, a igreja é isolada do mundo e vida dos seus tempos e requer-se que ela seja irrelevante e impotente. Na visão marxista, a separação da igreja e o Estado é um grande obstáculo e penalidade legal impostos sobre a igreja. É na verdade uma separação da relevância, do poder de influenciar, e da liberdade para funcionar. Na visão americana histórica, a Primeira Emenda coloca todas as restrições sobre o governo federal, que é impedido de estabelecer, governar, controlar ou regular a igreja. A visão marxista algema a igreja; a visão americana algema o Estado. Em anos recentes, o Estado, Congresso, os tribunais e vários presidentes têm manifestado, em diferentes graus, uma aderência à visão marxista. Assim como o poder estatal invadiu todas as outras esferas da sociedade, agora ele está invadindo a igreja. Assegura-se que o Estado tenha total jurisdição sobre cada esfera, e os tribunais em anos recentes têm se pronunciado sobre absurdos tais como código de vestimenta nas escolas e tamanho do cabelo de um garoto. Nenhuma questão é demasiadamente insignificante para ser ignorada pelos tribunais em seu zelo por jurisdição totalitária. Sem serem marxistas, eles compartilham da crença marxista da jurisdição total do Estado. Como esperado, eles estão se movendo na mesma direção. Isso não deveria nos surpreender. Dada a crença humanista no homem ou Estado como absolutos, qualquer liberdade ou poder alegado pela igreja é visto como irrelevante ou errado. O humanista está sendo fiel à sua fé, às suas pressuposições. O fato triste é que muitos teólogos compartilham da visão marxista. Para eles a separação da igreja e o Estado significa que a igreja nunca deve se envolver com algo que seja de preocupação política. Sou com frequência informado por leitores sobre pastores e líderes de igreja que não permitem a menção de aborto, homossexualidade, eutanásia e questões semelhantes no púlpito, e nem mesmo nas instalações da igreja. Tais assuntos, insistem eles, são “políticos” e “violam” a separação da igreja e o Estado. Eles chamam de ortodoxia a sua confusão, covardia e heresia. Os profetas, pregadores de Deus de outrora, eram ordenados pelo Senhor a proclamarem a lei-palavra de Deus com respeito a todas as coisas e a corrigir e repreender reis e governadores. Quando o nosso Senhor promete aos seus discípulos que eles seriam levados diante de governadores e reis por Sua causa, e “para testemunho contra eles” (Mt 10.18), ele não quis dizer que então eles deveriam repudiar a fé, ignorar o aborto e o homossexualismo, e ficarem calados sobre os pecados do Estado! Não há limites para a área do governo, lei e controle soberano de Deus. Não pode haver limites para as áreas de testemunho da igreja, nem para a sua pregação e preocupações ordenadas. Fonte: Christianity and the State, de R. J. Rushdoony Tradução: Felipe Sabino de Araújo Neto, maio/2010

25/08/14

Política e Escapismo

Escrito por: Phillip G. Kayser
O pecado do escapismo é uma realidade, e mesmo os melhores dos santos têm sido tentados neste pecado. No Salmo 11, Davi foi tentado a fugir como um pássaro para uma montanha pois os fundamentos da sua cultura estavam sendo destruídos. De fato, naquele capítulo ele está descrevendo vários problemas que estamos experimentando atualmente na América. Mas ele resistiu à tentação de escapar, e resistiu pela fé. Ele recusou escapar das suas responsabilidades. Uma forma de escapismo é encontrada na declaração “nossa cidadania está no céu e devemos tirar as pessoas da terra”. Mas Paulo não encontrou nenhuma contradição em reivindicar uma cidadania celestial em Filipenses 3.20 e ao mesmo tempo reivindicar e usar sua cidadania romana em Atos 16.37-39 e em 22.22-29. Nossa cidadania celestial (se corretamente entendida) impactará profundamente nossa cidadania terrena. Ela traz em perspectiva aquela frase maravilhosa, “Uma nação sob Deus”. Outra forma de escapismo pode ser encontrada na declaração, “O reino de Deus não é deste mundo”. Novamente, essa é uma declaração verdadeira se enterdemos pela palavra “de” [deste = de + este] que o reino de Deus não é derivado deste mundo. Ele é derivado do céu. Mas o que a oração do Senhor pede? “Venha o teu reino, seja feita a tua vontade, assim na terra como no céu.” Essa não é uma oração escapista. É uma oração que deseja ver o reino celestial influenciar e mudar as coisas terrenas. Outra forma de escapismo pode ser encontrada na expressão, “Estamos buscando apenas aquelas coisas que são de cima”. Uma vez mais, essa é uma declaração verdadeira, mas retirada do contexto. O contexto de Colossenses 3 é que Cristo (que é de cima) é suficiente para tudo o que precisamos na vida. Não se trata de um chamado para escapar da vida. E sabemos isso porque Paulo continua e mostra em Colossenses como Cristo é suficiente para as nossas relações no casamento, com os filhos, patrões, empregados e “tudo quanto fizerdes”. Isso não é escapismo. Isso é pedir que a Sua vontade seja feita na terra como é feita no céu. Mas era um mundo terra firma que estava sendo afetado em Colossenses. Outra escusa dada é que o mundo não é importante. J Vernon McGee disse certa feita: “Você não dá uma polida no casco do navio que está afundando”. A ideia é que quando um navio está afundando, não se preocupe com o navio – salve almas! Ele acreditava que o nosso mundo estava afundando, sendo o evangelismo a única coisa importante com a qual deveríamos nos envolver. Mas João o Batista estava polindo casco quando tentou produzir reforma política em Lucas 3.19? Não! Ele estava fazendo o que todos os profetas do Antigo Testamento fizeram – confrontando males na sociedade e tentando fazer a diferença. Louvo a Deus por ele estar levantando candidatos que estão tentando produzir reforma em Washington, DC. E você verá sem dúvidas vários deles chegando através dessas portas. Se o mundo não fosse importante, por que o Novo Testamento diz que Deus estava em Cristo reconciliando o mundo consigo mesmo (2Co 5.19)? Por que ele prometeria que os mansos herdariam a terra (Mt 5.5)? Por que Jesus recebeu toda a autoridae no céu e na terra no primeiro século? Por que Romanos 13 diz que o magistrado civil é servo de Deus, um ministro de justiça? Por que o Novo Testamento diz tanto sobre empregadores, empregados, economia e administração da terra? Obviamente o mundo é muito importante para Deus. A Bíbliz diz, “Porque meu é todo animal da selva, e o gado sobre milhares de montanhas”, demonstrando de maneira óbvia que ele está interessado em gados e montanhas. Eu amo o hino cristão “Alegria para o Mundo”. Ele diz que a graça de Deus é destinada a avançar, indo até mesmo onde a maldição é encontrada. Isso é bem longe. A maldição tem impactado negativamente a política? Sim, tem, e a graça de Deus é suficiente para ir bem longe, mesmo onde a maldição é encontrada. Fonte: Getting Christians Back Into Politics, p. 6-8. Tradução: Felipe Sabino de Araújo Neto – janeiro/2012