28/08/14

Cristianismo: Mãe da liberdade Política

P.Andrew Sandlin. A força política mais libertadora na história da humanidade tem sido o cristianismo (Jo 8.36). O cristianismo ramificou-se do tronco da religião hebraica piedosa do Antigo Testamento, e a antiga nação hebraica (antes da era dos reis [1Sm 8]) foi sem dúvida a sociedade mais libertária na história da humanidade. O cristianismo herdou da fé veterotestamentária a crença inabalável no Deus soberano e transcendente, que está acima de todos e julga toda a humanidade, incluindo seus sistemas de governo civil. A ordem política nunca é suprema. O cristianismo destruiu a unidade do antigo mundo pagão. A fonte dessa unidade era o Estado, geralmente identificado com a própria sociedade, no topo do qual estava um grande líder político, um rei ou imperador, que pensava ser um deus ou semelhante a deus. A unidade do antigo mundo pagão consistia na divinização da ordem temporal na forma do Estado. Mas o cristianismo reconhecia “outro rei” (At 17.7). Embora não por meios anarquistas, os primeiros cristãos reconheciam que nenhuma autoridade terrena, especialmente autoridade política, poderia ser suprema, pois somente a autoridade de Deus é suprema. Ao esclarecer a cristologia (a doutrina de Jesus Cristo) ortodoxa, o Concílio de Calcedônia (451 a.C.) lançou o fundamento da liberdade ocidental. Apenas Jesus Cristo é divino e humano, plenamente Deus e plenamente Homem, a única ligação entre céu e terra. Ele é o único Mediador divino-humano. Essa decisão repudiava dramaticamente toda divinização da ordem temporal. Nenhum Estado, nenhuma igreja, nenhuma família, poderia ser Deus ou semelhante a Deus. Esse reconhecimento colocou o cristianismo patrístico em rota de colisão com a política clássica. Os primeiros cristãos foram perseguidos de maneira selvagem, não porque adoravam a Jesus Cristo, mas porque recusavam adorar ao imperador romano. As sociedades politeístas encorajam a adoração de divindades. Elas resistem à exclusão de todas as divindades, particularmente o Estado, excetuando-se a Divindade verdadeira, o Deus da Bíblia. No mundo medieval, a Igreja Latina tornou-se uma força de compensação na sociedade, verificando e limitando a autoridade do Estado. De fato, na maior parte do tempo, o tamanho e a força da igreja excederam em muito a de qualquer Estado em particular. Lord Acton estava correto ao sugerir que a prática da liberdade política no Ocidente surgiu, em grande parte, a partir deste conflito medieval Igreja-Estado. Em adição, o mundo medieval, a despeito dos seus muitos defeitos, apoiou uma grande medida de liberdade política ao promover várias instituições humanas além da igreja que alegavam fidelidade ao homem: a família, a confraria, o senhor feudal, e assim por diante. Isso significou que o Estado tinha de compartilhar sua autoridade com outras instituições igualmente legítimas. Nenhuma instituição humana pode exercer autoridade suprema. As limitações constitucionais do poder político, das quais surgiu a prática de democracias constitucionais dos séculos 18 e 19, começaram na Inglaterra cristã com a Carta Magna. A Inglaterra também realizou o primeiro ataque bem sucedido contra a doutrina maligna do direito divino dos reis durante a Revolução Puritana na primeira metade do século 17; e em 1688-89, durante a Gloriosa Revolução de Guilherme e Maria, ela colocou o último prego no caixão desta ameaça duradoura à liberdade política. A fundação dos Estados Unidos foi a maior experiência em liberdade política daquele tempo, e ela funcionou conscientemente com base em certas premissas distintamente cristãs. Os Fundadores, por exemplo, reconheceram a doutrina bíblica do pecado original e da depravação humana, e portanto criaram um sistema de governo civil que dividiu a tomada de decisão entre vários ramos e que não outorgou muito poder a nenhum ramo do governo civil. Segundo, eles argumentaram que o papel do governo civil é assegurar os direitos de “vida, liberdade e felicidade”, com os quais Deus, como Criador, dotou todos os homens. Em terceiro lugar, reconhecendo a doutrina bíblica de que o governo civil deveria proteger as minorias (Ex 23.9), eles elaboraram uma constituição à qual juntaram uma Declaração de Direitos, inibindo assim o surgimento de uma tirania resultante de uma rápida mudança política segundo o capricho da opinião democrática. A liberdade política como refletida na separação de poderes, bem como nas fiscalizações e contra balanços; o papel do Estado em proteger a vida, liberdade e propriedade; e a proteção constitucional dos direitos das minorias – todos estes foram legados do cristianismo ao mundo moderno. Hoje o Ocidente definha sob a violência do aborto e eutanásia, a praga do homossexualismo, a pobreza do materialismo, a coerção do socialismo, o domínio da educação “pública”, o caos do ativismo judicial, e a injustiça do racismo e sexismo impostos. Essas tiranias são todas o resultado direto do abandono do cristianismo bíblico. O mundo ocidental tem aceitado crescentemente a proposta daquele primeiro político liberal moderno, Jean Jacque Rousseau: o Estado emancipará você da responsabilidade para com todas as instituições humanas não coercivas, como a família, igreja e os negócios, se apenas você submeter-se à coerção do Estado. O homem moderno está disposto a negociar a sua responsabilidade para com a família, igreja e os negócios, trocando-a por submissão a uma ordem política crescentemente coerciva e violenta. Estamos retornando ao mundo pagão clássico, no qual o Estado coercivo é o princípio unificador de tudo na vida. Os regimes políticos mais cruéis, violentos e assassinos na história da humanidade tem sido os não-cristãos ou anti-cristãos: o humanismo pagão primitivo dos antigos Egito, Babilônia, Pérsia, Grécia e Roma, e o humanismo secular sofisticado da França revolucionária, União Soviética, China Vermelha, Alemanha Nazista, Itália Fascista, e outros estados seculares modernos. O humanismo é e sempre será uma receita para o terror e tirania políticos. A única esperança para o retorno da liberdade política e da sociedade livre que ela promove é um retorno ao cristianismo bíblico e ortodoxo. O cristianismo não é meramente uma matriz na qual a liberdade política floresce; ele é o único fundamento sobre o qual se pode construir uma sociedade livre. 17 de agosto de 2000 Fonte: www.lewrockwell.com Tradução: Felipe Sabino de Araújo Neto – 05 de janeiro de 2011. Revisão: Jazanias Oliveira

27/08/14

A Separação Marxista da Igreja eo Estado

Escrito por: R. J. Rushdoony
Um entendimento da doutrina marxista da separação da igreja e o Estado é urgentemente necessário, porque há uma crescente confusão entre a visão marxista e a antiga posição americana. No mundo marxista, como na União Soviética, a separação da igreja e o Estado significa que a igreja deve ser totalmente separada de cada área da vida e pensamento. Ela não tem a permissão de educar ou influenciar a educação, muito menos influenciar o Estado. Porque as crianças são vistas como propriedade do Estado, a igreja não pode influenciar ou ensinar as crianças. Em todas as esferas, a igreja é isolada do mundo e vida dos seus tempos e requer-se que ela seja irrelevante e impotente. Na visão marxista, a separação da igreja e o Estado é um grande obstáculo e penalidade legal impostos sobre a igreja. É na verdade uma separação da relevância, do poder de influenciar, e da liberdade para funcionar. Na visão americana histórica, a Primeira Emenda coloca todas as restrições sobre o governo federal, que é impedido de estabelecer, governar, controlar ou regular a igreja. A visão marxista algema a igreja; a visão americana algema o Estado. Em anos recentes, o Estado, Congresso, os tribunais e vários presidentes têm manifestado, em diferentes graus, uma aderência à visão marxista. Assim como o poder estatal invadiu todas as outras esferas da sociedade, agora ele está invadindo a igreja. Assegura-se que o Estado tenha total jurisdição sobre cada esfera, e os tribunais em anos recentes têm se pronunciado sobre absurdos tais como código de vestimenta nas escolas e tamanho do cabelo de um garoto. Nenhuma questão é demasiadamente insignificante para ser ignorada pelos tribunais em seu zelo por jurisdição totalitária. Sem serem marxistas, eles compartilham da crença marxista da jurisdição total do Estado. Como esperado, eles estão se movendo na mesma direção. Isso não deveria nos surpreender. Dada a crença humanista no homem ou Estado como absolutos, qualquer liberdade ou poder alegado pela igreja é visto como irrelevante ou errado. O humanista está sendo fiel à sua fé, às suas pressuposições. O fato triste é que muitos teólogos compartilham da visão marxista. Para eles a separação da igreja e o Estado significa que a igreja nunca deve se envolver com algo que seja de preocupação política. Sou com frequência informado por leitores sobre pastores e líderes de igreja que não permitem a menção de aborto, homossexualidade, eutanásia e questões semelhantes no púlpito, e nem mesmo nas instalações da igreja. Tais assuntos, insistem eles, são “políticos” e “violam” a separação da igreja e o Estado. Eles chamam de ortodoxia a sua confusão, covardia e heresia. Os profetas, pregadores de Deus de outrora, eram ordenados pelo Senhor a proclamarem a lei-palavra de Deus com respeito a todas as coisas e a corrigir e repreender reis e governadores. Quando o nosso Senhor promete aos seus discípulos que eles seriam levados diante de governadores e reis por Sua causa, e “para testemunho contra eles” (Mt 10.18), ele não quis dizer que então eles deveriam repudiar a fé, ignorar o aborto e o homossexualismo, e ficarem calados sobre os pecados do Estado! Não há limites para a área do governo, lei e controle soberano de Deus. Não pode haver limites para as áreas de testemunho da igreja, nem para a sua pregação e preocupações ordenadas. Fonte: Christianity and the State, de R. J. Rushdoony Tradução: Felipe Sabino de Araújo Neto, maio/2010

25/08/14

Política e Escapismo

Escrito por: Phillip G. Kayser
O pecado do escapismo é uma realidade, e mesmo os melhores dos santos têm sido tentados neste pecado. No Salmo 11, Davi foi tentado a fugir como um pássaro para uma montanha pois os fundamentos da sua cultura estavam sendo destruídos. De fato, naquele capítulo ele está descrevendo vários problemas que estamos experimentando atualmente na América. Mas ele resistiu à tentação de escapar, e resistiu pela fé. Ele recusou escapar das suas responsabilidades. Uma forma de escapismo é encontrada na declaração “nossa cidadania está no céu e devemos tirar as pessoas da terra”. Mas Paulo não encontrou nenhuma contradição em reivindicar uma cidadania celestial em Filipenses 3.20 e ao mesmo tempo reivindicar e usar sua cidadania romana em Atos 16.37-39 e em 22.22-29. Nossa cidadania celestial (se corretamente entendida) impactará profundamente nossa cidadania terrena. Ela traz em perspectiva aquela frase maravilhosa, “Uma nação sob Deus”. Outra forma de escapismo pode ser encontrada na declaração, “O reino de Deus não é deste mundo”. Novamente, essa é uma declaração verdadeira se enterdemos pela palavra “de” [deste = de + este] que o reino de Deus não é derivado deste mundo. Ele é derivado do céu. Mas o que a oração do Senhor pede? “Venha o teu reino, seja feita a tua vontade, assim na terra como no céu.” Essa não é uma oração escapista. É uma oração que deseja ver o reino celestial influenciar e mudar as coisas terrenas. Outra forma de escapismo pode ser encontrada na expressão, “Estamos buscando apenas aquelas coisas que são de cima”. Uma vez mais, essa é uma declaração verdadeira, mas retirada do contexto. O contexto de Colossenses 3 é que Cristo (que é de cima) é suficiente para tudo o que precisamos na vida. Não se trata de um chamado para escapar da vida. E sabemos isso porque Paulo continua e mostra em Colossenses como Cristo é suficiente para as nossas relações no casamento, com os filhos, patrões, empregados e “tudo quanto fizerdes”. Isso não é escapismo. Isso é pedir que a Sua vontade seja feita na terra como é feita no céu. Mas era um mundo terra firma que estava sendo afetado em Colossenses. Outra escusa dada é que o mundo não é importante. J Vernon McGee disse certa feita: “Você não dá uma polida no casco do navio que está afundando”. A ideia é que quando um navio está afundando, não se preocupe com o navio – salve almas! Ele acreditava que o nosso mundo estava afundando, sendo o evangelismo a única coisa importante com a qual deveríamos nos envolver. Mas João o Batista estava polindo casco quando tentou produzir reforma política em Lucas 3.19? Não! Ele estava fazendo o que todos os profetas do Antigo Testamento fizeram – confrontando males na sociedade e tentando fazer a diferença. Louvo a Deus por ele estar levantando candidatos que estão tentando produzir reforma em Washington, DC. E você verá sem dúvidas vários deles chegando através dessas portas. Se o mundo não fosse importante, por que o Novo Testamento diz que Deus estava em Cristo reconciliando o mundo consigo mesmo (2Co 5.19)? Por que ele prometeria que os mansos herdariam a terra (Mt 5.5)? Por que Jesus recebeu toda a autoridae no céu e na terra no primeiro século? Por que Romanos 13 diz que o magistrado civil é servo de Deus, um ministro de justiça? Por que o Novo Testamento diz tanto sobre empregadores, empregados, economia e administração da terra? Obviamente o mundo é muito importante para Deus. A Bíbliz diz, “Porque meu é todo animal da selva, e o gado sobre milhares de montanhas”, demonstrando de maneira óbvia que ele está interessado em gados e montanhas. Eu amo o hino cristão “Alegria para o Mundo”. Ele diz que a graça de Deus é destinada a avançar, indo até mesmo onde a maldição é encontrada. Isso é bem longe. A maldição tem impactado negativamente a política? Sim, tem, e a graça de Deus é suficiente para ir bem longe, mesmo onde a maldição é encontrada. Fonte: Getting Christians Back Into Politics, p. 6-8. Tradução: Felipe Sabino de Araújo Neto – janeiro/2012
Escrito por: Gordon H. Clark
A ética calvinista é baseada na revelação. A distinção entre certo e errado não se resolve por meio de uma descoberta empírica da lei natural, como foi o caso de Aristóteles e de Tomás de Aquino, nem pelo formalismo lógico de Kant e, certamente, nem pelo cálculo impossível do utilitarismo do maior bem para maior número, mas pela revelação de Deus nos Dez Mandamentos. Essa revelação vem, primeiro, do ato de Deus de criar o homem à sua própria imagem e dos princípios morais básicos implantados no seu coração, mais tarde violados pelo pecado; segundo, das instruções específicas dadas a Adão e a Noé, que sem dúvida ultrapassavam e expandiam a doação inata; terceiro, da revelação mais compreensiva dada a Moisés; e mais, quarto, dos diversos preceitos subsidiários dados no restante da Bíblia. Embora a igreja medieval conhecesse os dez mandamentos – Pelágio, em sua defesa do livre arbítrio ensinou até mesmo que era possível obedecê-los perfeitamente, e a maior parte da igreja passou a crer que a observação desses preceitos dava mérito para a salvação – Calvino foi quem iniciou um estilo quase completamente novo do uso sistemático dos Dez Mandamentos como base ética. Em suas Institutas, II 8, ele faz uma Exposição da Lei Moral, para o que utiliza, aproximadamente, cinquenta páginas. Sua defesa, numa longa exposição, é de que “os mandamentos e as proibições sempre deixam implícito mais do que as palavras expressam… Em todos os mandamentos… se expressa uma parte e não o todo… A melhor regra, então, é que a exposição seja direcionada ao desígnio do preceito… como o final do quinto mandamento é que honra seja dada a aqueles a quem Deus determina a honra…” (II.vii.8). Na parte principal da exposição, Calvino escreve sobre o sexto mandamento como se segue: “O propósito desse preceito é que, como Deus uniu a humanidade numa certo tipo de unidade, todo homem deve considerar-se responsável pela segurança de todos. Em suma, portanto, toda violência e injustiça e toda espécie de mal que possa ferir o corpo de nosso próximo, é-nos proibido… O Legislador Divino… pretende que a regra governe a alma… Portanto o homicídio mental é igualmente proibido… ‘Aquele que odeia seu irmão é assassino’” (II.viii.39). Seguindo essa direção de Calvino, os estudiosos de Westminster dedicaram as questões 91-151 do catecismo Maior à lei moral. Tomemos como exemplo a pergunta 139: P. 139. Quais são os pecados proibidos no sétimo mandamento? R. Os pecados proibidos no sétimo mandamento, além da negligência dos deveres exigidos, são: adultério, fornicação, rapto, incesto, sodomia e todas as concupiscências desnaturais, todas as imaginações, pensamentos, propósitos e afetos impuros; todas as comunicações corruptas ou torpes, ou o ouvir as mesmas; os olhares lascivos, o comportamento impudente ou leviano; o vestuário imodesto; a proibição de casamentos lícitos e a permissão de casamentos ilícitos; o permitir, tolerar ou ter bordéis e a frequentação deles; os votos embaraçadores do celibato; a demora indevida de casamento; o ter mais que uma mulher ou mais que um marido ao mesmo tempo; o divórcio ou o abandono injusto; a ociosidade, a glutonaria, a bebedice, a sociedade impura; cânticos, livros, gravuras, danças espetáculos lascivos e todas as demais provocações à impureza, ou atos de impureza, quer em nós mesmos, quer nos outros. Isso faz sobressair a diferença de padrões morais entre o Calvinismo e o fundamentalismo. Nos Estados Unidos, igrejas arminianas muitas vezes exigem de seus membros que evitem o cinema por causa da lascividade de Hollywood. À vezes, o cinema é pior do que isso: é pornografia explícita. Nesse caso, então, alguns livros e revistas são, igualmente, pornográficos. Deve, uma igreja, então, proibir todos os livros e revistas? O calvinismo se mantém com a Bíblia e não proíbe nem cinema nem livros em geral, mas proíbe “Cânticos, livros, gravuras, danças, espetáculos lascivos”. Lendo adiante no Catecismo Maior vemos, para surpresa de alguns, como é ampla e detalhada a Lei de Deus. Assim sendo, pastores e escritores calvinistas têm feito, com regularidade, exposições dos Dez Mandamentos. Um exemplo anglicano é o de Ezekiel Hopkins, Bispo de Derry (1633-1689), cuja exposição ocupa dezenas de páginas. Essas exposições das aplicações detalhadas da lei moral são uniformemente prefaciadas por alguns comentários sobre pecado, graça e moralismo. O sistema de méritos católico romano tornou isso necessário. Hoje outros dois pontos de vista necessitam o mesmo pano de fundo teológico. Primeiro, há uma visão petista que depende da direção ou de instruções diretas do Espírito Santo. As diretrizes das Escrituras são vistas como sendo insuficientes ou até mesmo como inaplicáveis “numa era de graça”. Assim sendo, a pessoa precisa receber uma resposta de oração para saber se determinado ato é certo ou errado. O calvinismo fica com a Bíblia e não aceita declarações de revelação especial tardia. O segundo fator que necessita o pano de fundo teológico é a nova definição de legalismo oferecida pelo liberalismo (q.v.). Antigamente, o legalismo era a teoria de que o homem poderia merecer a salvação completa ou parcial mediante o cumprimento da lei; a fé, portanto, não era o único meio de justificação. Mas o liberalismo contemporâneo define o legalismo como qualquer tentativa de distinguir o certo do errado por meio de regras, preceitos ou mandamentos. O argumento é que nenhuma regra cabe em todos os casos, pois sempre há exceções; ou, até mesmo, que toda situação é totalmente singular, tornando sempre impossível o uso de regras. Assim, toda situação deve ser percebida (não julgada) singularmente, e (geralmente) o amor decide o que fazer. Então, o amor naturalmente sanciona o aborto, a homossexualidade e qualquer coisa que seja feita com amor. O Apóstolo Paulo escreveu aos coríntios sobre essa espécie de ideia. O calvinismo define o pecado como qualquer falta de conformidade para com, ou transgressão da lei de Deus. Salvo pela graça, ou seja, salvo do pecado e de seus efeitos, o cristão é santificado por meio de uma obediência cada vez mais completa aos Mandamentos de Deus. Hoje, com a falha do modernismo em prover ordem moral separada de Deus e fundada na razão, o pós-modernismo (que não é outro, mas uma continuidade) alterou o pensamento ético moral transferindo da discussão entre o bem e o mal para uma discussão entre bens conflitantes. Para o homem pós-moderno, não há qualquer pressuposição, qualquer revelação nem qualquer absoluto(a não ser que não há proposições nem revelação nem absolutos…). Tudo consiste de narrativas, de liberdades individuais e de programas políticos para proteger a pessoa da imposição de valores morais. O pensamento ético-moral de Calvino se opõe diametralmente, à proposta ética pós-moderna, pressupondo a Criação, a Queda, a Redenção e a esperança bíblicas, pressupondo a revelação natural e a revelação específica de Deus, e pressupondo a derivação de todos os aspectos da realidade, incluindo os mais elevados – estético, moral e ético – do aspecto maior da fé. Fonte: Dicionário de Ética Cristã, Carl Henry, Cultura Cristã, p. 231-233

O reino de Cristo não é desse mundo,mas Cristo Governa esse Mundo

[Nota: A frase “o reino de Deus” tem significados diferentes, dependendo do contexto. Para um tratamento completo da doutrina do reino de Deus, veja The Kingdom of God de Brian Schwertley] Existem pessoas que creem que a declaração de Cristo “Meu reino não é deste mundo” (Jo 18.36b) significa que o reino de Deus está estreitamente confinado a coisas como céu, o indivíduo, e/ou a igreja; como tal, o reino de Cristo não tem nada a ver com os reinos deste mundo. Mas essa visão têm vários problemas. Primeiro, não existe razão para insistir que “deste mundo” signifique “nada a ver com o mundo”. Os discípulos de Cristo estão no mundo, mas “não são do mundo” (João 15.19b). Dessa forma, “o mundo” em João 15 não exclui os discípulos de Cristo de estarem envolvidos com o mundo. Nem significa que eles não devem trabalhar, pela graça de Deus, para transformar o mundo — e de fato, a Grande Comissão requer que os discípulos de Cristo tentem fazer exatamente isso (Mt 28.18-20). Segundo, embora o reino de Cristo não seja deste mundo, ele está sobre este mundo: “O SENHOR tem estabelecido o seu trono nos céus, e o seu reino domina sobre tudo” (Salmos 103.19) (ênfase minha). Cristo, dessa forma, é Rei sobre o mundo (1Tm 6.15; cf. Ef 1.20-22). O mesmo Cristo que disse a Pilatos “Meu reino não é deste mundo” (Jo 18.36b) também disse a Pilatos “Nenhum poder terias contra mim, se de cima não te fosse dado” (João 19.11b). O reino dos homens está subordinado ao reino de Deus: Esta sentença é por decreto dos vigias, e esta ordem por mandado dos santos, a fim de que conheçam os viventes que o Altíssimo tem domínio sobre o reino dos homens, e o dá a quem quer, e até ao mais humilde dos homens constitui sobre ele. (Daniel 4.17) A Grande Comissão reconhece que o reino de Cristo é sobre o mundo: “É-me dado todo o poder no céu e na terra” (Mt 28.18). É porque os reinos terrenos estão subordinados ao reino de Deus, e por isso devem se submeter a este, que Pilatos pecou em seu tratamento para com Jesus. Como Jesus disse a Pilatos em João 19.11c, “Mas aquele que me entregou a ti maior pecado tem”. Havia um pecado maior que o de Pilatos, mas a despeito disso Pilatos havia pecado. Por outro lado, se o reino de Deus não tem nada a ver com este mundo, então os reinos terrenos não teriam nenhuma responsabilidade moral diante de Deus, e portanto Pilatos não teria pecado. Terceiro, “deste mundo” tem a ver com fonte de poder. “O reino de Cristo não deriva a sua origem do mundo” [1] — assim, o reino de Cristo não é deste mundo no sentido que ele não existe a partir do mundo. De fato, o mesmo versículo que diz “Meu reino não é deste mundo” continua para dizer a mesma coisa — “mas o meu reino não é daqui” (Jo 18.36d). “Pelo contrário, o seu reino foi lhe dado por seu Pai (Dn 7,14)”, [2] e portanto, Deus tem tudo a ver com governo civil. Quarto, em João 18.36 também lemos: “Se o meu reino fosse deste mundo, pelejariam os meus servos, para que eu não fosse entregue aos judeus”. Alguns interpretam isso como significando que os governantes não podem usar a espada para fazer cumprir as leis civis de Deus. Mas devemos rejeitar isso de pronto, visto que os governantes são obrigados a usar a espada para punir os malfeitores de acordo com as exigências de Deus (Rm 13.4). É verdade que os servos de Cristo “não ‘pelejam’ para estabelecer o Seu reino, ou mesmo para espalhar o Seu reino sobre a terra”.[3] O reino de Cristo avança “pelo Espírito Santo regenerando pecadores à medida que o evangelho é proclamado: ‘Não por força, mas pelo meu Espírito’, diz o Senhor dos Exércitos’ (Zc 4.6)”.[4] “Isso, contudo, não significa que o Estado não deve proteger o reino de Cristo de ataques, pois os magistrados civis devem garantir que o povo de Deus possa viver ‘uma vida quieta e sossegada, em toda piedade e honestidade’ (1Tm 2.2)”.[5] Observemos a razão que Jesus dá para dizer que os seus servos pelejariam se o Seu reino fosse deste mundo: “Se o meu reino fosse deste mundo, pelejariam os meus servos, para que eu não fosse entregue aos judeus” (ênfase minha). Nada há nessa razão que se oponha a fazer cumprir a lei civil bíblica, visto que fazer cumprir a lei civil bíblica e impedir Jesus de ser entregue aos judeus são dois conceitos inteiramente diferentes. Em outras palavras, o uso da espada pelos servos de Jesus para impedir que Jesus fosse entregue aos seus inimigos e o uso da espada pelo Estado para reforçar a justiça de Deus não são a mesma coisa. Talvez a razão pela qual Cristo conecta um reino terreno com os Seus servos lutando para impedi-lo de ser entregue aos judeus é que se ele fosse um mero rei terreno, e seus inimigos o destruíssem, o seu reino cessaria de existir. O único recurso seria os seus servos lutarem, para protegerem o seu rei e o seu reino. Mas Cristo não é um mero rei terreno; sendo Deus, ele governa sobre todos. Ele ser entregue aos judeus era parte do plano soberano de Deus, e dessa forma os inimigos de Cristo não podiam fazer nenhum dano ao Seu reino. Assim, não havia necessidade dos servos de Cristo lutarem para impedi-lo de ser entregue aos judeus. Devemos adicionar que tivesse os discípulos de Cristo impedido a sua crucificação com uma revolta armada, de modo algum haveria qualquer base para o aspecto-igreja do reino avançar, visto que o avanço desse reino depende da obra salvadora de Cristo. Quinto, aqueles que consistentemente enfatizam a ideia de que os cristãos nunca deveriam ter algo a ver com a espada devem ser pacifistas em toda situação concebível. Isso significaria o absurdo de não haver qualquer base moral para os cristãos se envolverem com o governo civil, guerra justa, autodefesa, e defesa de outros. Sexto, e finalmente, não esqueçamos a Oração do Senhor, que menciona “Pai Nosso, que estás nos céus, santificado seja o teu nome. Venha o teu reino, seja feita a tua vontade, assim na terra como no céu” (Mt 6.9b-10). Dessa forma, os cristãos devem desejar ver que todos os homens na terra – o que inclui os governantes civis – reconheçam e se submetam ao Reino de Deus. Assim, sustentar que o reino de Cristo não tem nada a ver com os reinos deste mundo é negar a própria Oração do Senhor. [1] Daniel F. N. Ritchie, A Conquered Kingdom: Biblical Civil Government (Saintfield, Northern Ireland: Reformed Worldview Books, 2008), 92. [2] Ibid. [3] Ibid., 93. [4] Ibid. [5] Ibid. Sobre a frase “pelejariam os meus servos”, João Calvino escreve: “Ele [Jesus] prova que não tinha como objetivo um reino terreno, pois ninguém se move, ninguém se arma em seu favor; pois se um indivíduo particular reivindica autoridade real, ele deve conquistar o poder por meio de homens sediciosos. Nada desse tipo é visto em Cristo; e, portanto, segue-se que ele não é um rei terreno. “Mas aqui surge uma questão: não é lícito defender o reino de Cristo com armas? Pois quando os Reis e Príncipes são ordenados a beijar o Filho de Deus (Salmo 2.10-12), não somente são eles intimados a se submeter à Sua autoridade em suas atribuições privadas, mas também a empregar todo o poder que possuem para defender a Igreja e manter a piedade. Respondo, primeiro, que aqueles que extraem essa conclusão, que a doutrina de Evangelho e a adoração pura de Deus não deveriam ser defendidas por armas, são raciocinadores inábeis e ignorantes; pois Cristo argumenta somente a partir de fatos do caso em questão, de quão frívolas eram as calúnias que os judeus tinham trazido contra ele. Em segundo lugar, embora reis piedosos defendam o reino de Cristo pela espada, ainda assim isso é feito de uma maneira diferente daquela pela qual os reinos mundanos são costumeiramente defendidos; pois o reino de Cristo, sendo espiritual, deve estar fundamentado sobre a doutrina e o poder do Espírito. A sua edificação também é promovida da mesma maneira; pois nem as leis nem os decretos dos homens, nem os castigos infligidos por eles, entram nas consciências. Todavia, isso não impede os princípes de acidentalmente defender o reino de Cristo; em parte estabelecendo disciplina externa, e em parte protegendo a Igreja contra os homens ímpios. Contudo, por causa da depravação do mundo, o reino de Cristo é fortalecido mais pelo sangue dos mártires do que pela ajuda das armas.” John Calvin, Commentary on the Gospel According to John: Volume Second, William Pringle, trans. (Grand Rapids, MI: Wm. B. Eerdmans Publishing Company, 1949), 210, 211. Fonte: http://theonomyresources.blogspot.com/ Tradução: Felipe Sabino de Araújo Neto – janeiro/2012 O autor é professor de teonomia, apologética e história no New Geneva Christian Leadership Academy. Sua tese de mestrado em Governo foi sobre apologética teonomista, a qual foi publicada com o título "God is Just: A Defense of the Old Testament Civil Laws".